Tropicultura

Desde a chamada Revolução Verde iniciada na década de 60 nos Estados Unidos, toda a tecnologia empregada na agricultura envolvendo tanto nutrição quanto sanidade, foi desenvolvida para maximizar o potencial da utilização de produtos químicos sobre a produtividade agrícola, visando eliminar o risco de que as taxas de crescimento da oferta de alimentos fossem inferiores às do crescimento populacional.

Este pacote tecnológico foi adotado no Brasil a partir da década de 70 e desde então tem sido o fundamento dos sucessivos ganhos de produtividade alcançados na agricultura brasileira.

A transferência deste pacote tecnológico para as condições brasileiras não se deu, entretanto, sem prejuízos. As condições climáticas marcadamente diferentes entre países de clima temperado e de clima tropical contribuíram para que a adoção de certas práticas agrícolas gerasse externalidades negativas. Em regiões de clima tropical os dias são mais curtos (13 horas), enquanto que em regiões de clima temperado o fotoperíodo estende-se por pelo menos duas horas adicionais. Nessas condições, em climas temperados a fotossíntese se processa em maior período, com conseqüente maior fixação de CO2 do que nas regiões de clima tropical. Nos trópicos, as temperaturas médias do ar em todos os meses do ano são superiores a 18 °C e a variação diurna da temperatura é maior do que a variação anual da temperatura média, isto é, entre o mês mais quente e o mês mais frio do ano. Além disto, as noites são mais quentes e longas, aumentando a respiração das plantas e a perda de CO2. O clima tropical caracteriza-se ainda pela inexistência de estação invernosa e por altos índices pluviométricos, sendo que a precipitação anual é superior à evapotranspiração potencial anual. A inconstância climática entre anos, causada entre outros por fenômenos climatológicos como El Niño e La Niña, tornam os problemas enfrentados pela agricultura mais numerosos e complexos, dado o alto grau de imprevisibilidade.

As condições climáticas afetam diretamente os meios físicos e biológicos utilizados na produção agrícola. Plantas, insetos e microorganismos são especialmente dependentes das condições climáticas para o seu desenvolvimento e reprodução. Condições de alta temperatura e umidade, características das regiões de clima tropical, induzem a redução do ciclo reprodutivo daqueles seres vivos, permitindo, por um lado, um maior número de colheitas, por outro, um maior número de ações para o controle de pragas e doenças. As condições de alta precipitação das regiões tropicais, além de determinantes da baixa fertilidade de seus solos, promovem os processos de erosão e lixiviação dos solos agrícolas, contribuindo ainda mais para a redução da sua fertilidade.

A transferência do pacote tecnológico norte-americano para as condições brasileiras só foi possível com a adaptação de cultivares às nossas condições climáticas de temperatura e fotoperiodismo e com a correção da acidez característica de nossos solos. A tecnologia gerada para estas adaptações foi altamente bem sucedida, como comprovam os patamares de produtividade alcançados pelas mais diversas culturas de origem temperada cultivadas no país. Para contornar o problema de erosão decorrente dos altos índices pluviométricos, foram desenvolvidas técnicas de preparo mínimo do solo (plantio direto) que levaram também a uma melhoria das características físicas dos solos. Porém, nas questões de nutrição e sanidade houve ajustes mínimos da tecnologia importada. Concentrou-se a questão de nutrição de plantas nas suas deficiências químicas, principalmente quanto aos macroelementos, sem que se atentasse para as suas necessidades bioquímicas e biológicas, que são razoavelmente supridas nas condições de solos ricos em matéria-orgânica, microelementos e aminoácidos das regiões de clima temperado. O controle químico de pragas e doenças, dada a rápida multiplicação destes seres em condições tropicais, têm se mostrado pouco eficiente, na medida em que as múltiplas aplicações de defensivos necessárias tornam o processo caro, além de contribuir para a seleção de seres resistentes.

As condições existentes nas regiões de clima tropical exigem que se desenvolvam tecnologias locais tanto para a nutrição quanto para o controle de pragas e doenças. Emerge assim um novo conceito, o da Tropicultura, que envolve uma mudança de visão e atitude no trato dos problemas tipicamente tropicais. Hoje, a biotecnologia traz ferramentas que possibilitam a utilização dos conhecimentos de biologia e bioquímica para a solução de problemas oriundos da complexidade dos sistemas biológicos em condições tropicais. Por meio de práticas adequadas a cada cultura e região é possível manter em equilíbrio permanente o sistema de produção.